Este será o legado?

Terceira alta consecutiva eleva taxa de desemprego para 13,1% e indica que o governo Temer está longe de transmitir confiança aos investidores.

Para uma economia que tenta sair de vez de uma prolongada recessão, o Brasil tem piorado em um pilar fundamental de qualquer retomada: a geração de emprego. Na sexta-feira 27, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), confirmou que a taxa de desemprego tem crescido por três trimestres consecutivos e que a falta de trabalho já atinge mais de 13,7 milhões de brasileiros. Para piorar, o real segue se desvalorizando frente ao dólar e a bolsa de valores entrou em queda depois de um início de ano alvissareiro.

O que os números mostram de forma indiscutível é que, descontada a inflação, hoje contida, estamos em uma situação não muito diferente daquela de de dois anos atrás, quando Michel Temer assumiu a presidência da República. Seu compromisso era colocar o Brasil nos eixos e deixar como legado um exemplo de gestão competente e responsável no âmbito econômico. Era o que o País esperava. O que se vê agora é que o legado de Temer na economia está longe do desejado. E para piorar o que já está ruim, a Polícia Federal agora investiga suspeitas de corrupção sobre o atual presidente.

O número de brasileiros com carteira assinada fechou o primeiro trimestre do ano em 32,9 milhões, o menor desde 2012. Na comparação com o trimestre anterior, o número de desempregados aumentou em 1,379 milhão de pessoas. A taxa de ocupação ficou abaixo do que esperavam os analistas. Apesar de a Reforma Trabalhista que entrou em vigor no final do ano passado ter o claro objetivo de incentivar novas contratações, a tendência de informalidade está mantida. O número de trabalhadores sem carteira assinada cresceu 5,2%, na comparação com o primeiro trimestre de 2017, ganhando um contingente de mais 533 mil pessoas. Já a categoria dos autônomos ganhou mais 839 mil pessoas, com alta de 3,8%, em relação ao mesmo período do ano anterior, somando 23 milhões de pessoas. “Em três anos, o País perdeu quatro milhões de carteiras de trabalho assinadas”, afirmou Cimar Azevedo, coordenador do Pnad. Mesmo assim, ele se mostra algo otimista, pois o cenário do mercado de trabalho sofreu uma redução pequena (1,5%), em relação ao primeiro trimestre do ano passado.

Se internamente a retomada econômica não dá sinais consistentes de que vá deslanchar e o cenário eleitoral se mantém nebuloso, nos Estados Unidos a projeção de altas adicionais dos juros – com aumento dos rendimentos dos títulos públicos norte-americanos – para conter pressões inflacionárias diante de expectativa de aumento das commodities fez com que o dólar atingisse R$ 3,50 na quarta 25, após cinco altas seguidas. É o maior nível da moeda americana desde meados de junho de 2016, quando Dilma Rousseff ainda usava a faixa presidencial.

Para o professor de economia Joelson Sampaio, da Fundação Getulio Vargas, apesar de sempre haver uma redução no índice de emprego nos primeiros meses de cada ano, não estão justificadas as demissões ocorridas nos setores na construção civil e indústria, menos afeitos à sazonalidades. “Este é um ano de incertezas para os agentes econômicos, que temem perder dinheiro no Brasil. Voltamos a lidar com o velho fator da falta de confiança, pois não há um cenário definido para o futuro do País”, diz Sampaio.

 

Propinas

Para embolar ainda mais essa complexa equação, o fator político só faz aumentar o desgaste. Um inquérito autorizado pelo STF que investiga a possível participação de Michel Temer em um esquema de propinas envolvendo o setor portuário permitiram reformas de R$ 2 milhões em imóveis em nome de seus parentes, o que causou reações pouco republicanas. Ao melhor estilo Donald Trump, Temer foi ao Twitter afirmando que irá defender sua honra, a de seu filho de 11 anos e a de sua família. “Os investigadores ainda vão tentar rastrear a origem dos recursos para a compra dos imóveis. Como então já afirmam que são de origem ilícita? É uma irresponsabilidade. É uma perseguição criminosa disfarçada de investigação”, postou na sexta 27, cerca de 20 minutos antes de receber no Planalto o presidente do Chile, Sebastián Piñera.

Ainda que os brasileiros saibam conviver com esse ambiente conturbado, o mesmo não acorre com os investidores estrangeiros, que adotam uma postura de preocupação extrema tanto no setor produtivo quanto no mercado financeiro. O resultado pode ser uma fuga ainda maior dos capitais de curto prazo tão necessários nesse momento.

“Como só vemos o presidente falar em complôs, sem acenar com obras de educação e infra-estrutura para a sociedade, a saída é postergar investimentos, produção e contratações”, diz o professor de economia do Insper Otto Nogami.

 

Fonte: Isto É.

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